terça-feira, 17 de abril de 2012

Os deficientes visuais vão ao cinema


DO ESTADÃO

Antes de entrar no cinema, Leonardo Rossi Lazzari avisa à reportagem: “Esperem um pouco, vou fazer um aquecimento vocal e já volto”. Ele precisa preparar a voz para narrar toda a audiodescrição do filme “Melancolia”, de Lars von Trier. O longa de 136 minutos é um dos títulos  exibidos no Festival Melhores Filmes 2011, no CineSESC, que acontece até dia 29 de abril. Todas as sessões exibidas durante o período são acessíveis a deficientes visuais e auditivos.
Isto só é possível graças ao trabalho da Iguale, empresa fundada por Maurício Santana no fim de 2007. Ele conversava com um amigo que trabalhava na elaboração de legendas para deficientes auditivos (closed caption) na televisão. “Perguntei a ele se existia alguma ferramenta para que os deficientes visuais assistissem aos programas”, conta Santana. Ainda não era feito nada assim no Brasil, mas o empresário descobriu que já existiam empresas de audiodescrição em países como Espanha, Inglaterra e Estados Unidos.
Para assistir a um filme com audiodescrição, é preciso retirar na entrada do cinema fones de ouvido com receptor sem fio, semelhantes aos usados em eventos com tradução simultânea. O deficiente visual pode, então, perceber mais detalhes da obra. “Os diálogos podem ajudar na compreensão da história, mas há detalhes que passam despercebidos”, diz Santana. As primeiras cenas de Melancolia, por exemplo, são compostas apenas de imagens e música. A única voz ouvida é a do audiodescritor. Este é o trecho inicial do filme:
Tela escura. Aos poucos surge em primeiro plano, a imagem fechada do rosto de uma mulher jovem, de cabelos loiros, curtos e lisos. A cena em câmera lenta mostra-a abrindo os olhos. Ela tem o rosto sutilmente arredondado, lábios finos, olhos um pouco puxados e nariz reto, porém levemente abaulado na ponta. / Ao fundo as nuvens do céu são suavemente alaranjadas, de onde começam a cair mortas, algumas aves de rapina. / A imagem abre em plano geral de um enorme jardim gramado de frente para o mar. Ele é cercado nas laterais por pequenos pinheiros, alinhados longitudinalmente. Em primeiro plano há um grande relógio de Sol, com a base de pedra e o ponteiro de metal. Ao fundo a mulher gira uma criança pelos braços. O local parece estar em uma montanha, pois é cercado por floresta e rochas. / Imagem do quadro “Os caçadores na neve” de Pieter Bruegel. A pintura mostra uma cena de inverno no qual três caçadores cansados estão voltando de uma expedição mal sucedida, acompanhados pelos seus cães. A impressão visual do todo é de um dia frio e nublado. De repente, ainda em câmera lenta, surgem pequenas manchas negras sobre a tela, e a pintura começa a queimar.
Além da descrição visual das cenas, os filmes estrangeiros utilizam uma estratégia chamada voice over, que é uma espécie de leitura interpretada das legendas. Não é dublagem, já que é feita ao vivo e por apenas uma pessoa, que tem que acentuar a voz de maneira diferente para cada personagem. Por este motivo, todos os narradores da Iguale são atores. “A pessoa precisa saber quando mudar a entonação, quando falar mais lentamente”, afirma Santana.

Cena do filme Melancolia, de Lars von Trier
O fundador da Iguale explica por que a audiodescrição tem que ser feita ao vivo. “Queremos manter a maior sincronização possível com o filme”, afirma. “Os cinemas brasileiros ainda não são digitais, cada filme é projetado em uma velocidade diferente, o que pode comprometer o trabalho”. A presença de narradores no momento de exibição, de acordo com Santana, permite um encaixe melhor entre as falar e a ação na tela.
Leonardo Lazzari também participa da equipe que compõe roteiros de audiodescrição. Antes de elaborar o trabalho, eles precisam estudar a obra e escolher aspectos que devem ser ressaltados para a compreensão do deficiente visual. “Melancolia, por exemplo, é um filme com muito simbolismo”, afirma Lazzari. “Se não tivéssemos feito um trabalho de pesquisa, não poderíamos passar aos espectadores todas as referências a obras de arte feitas por Lars von Trier”. Para adaptar totalmente a obra cinematográfica à audiodescrição, foram investidas cerca de 30 horas de trabalho.
A sala da qual Lazzari narra o filme é semelhante às usadas em eventos que contam com tradução simultânea. Ao lado de uma mesa de som, ficam garrafas d’água sem gelo,  que são esvaziadas durante a exibição da obra. O cubículo fica em meio ao bar da parte dos fundos do CineSESC. Os visitantes não estranham a instalação, já que é o terceiro ano com audiodescrição no festival.
Para o narrador, o número de visitantes com deficiência visual tem aumentado ano a ano. “Eles costumam dizer que é a única época do ano em que podem ir ao cinema”, conta Lazzari. “Para nós, é muito bom ouvir este tipo de coisa”.
Além da audiodescrição, as sessões do festival têm uma opção para os deficientes auditivos. Em uma tela menor, abaixo da em que o filme é projetado, é exibida uma legenda no estilo closed caption. Uma pessoa, sentada na primeira fila, controla o momento em que as palavras serão exibidas. Grupos e instituições que desejarem conhecer o evento podem entrar em contato com o cinema para requisitar uma van de acesso ao local ou um pessoal de apoio para o trajeto do metrô Consolação até o CineSESC.
Serviço:
Festival SESC Melhores Filmes 2011
Até  29/4
CineSESC – R. Augusta, 2.075, Jardins, 3087-0500
Programação em www.sesc

Justiça eleitoral dá exemplo com campanha de TV inclusiva



Do http://www.inclusive.org.br/?p=22348
video


Está sendo veiculada de 19 de março a 29 de abril, no rádio e na televisão, a campanha nacional da Justiça Eleitoral sobre o alistamento dos eleitores, denominada “Brasileiro que vota não foge à luta”.
O objetivo é informar sobre a necessidade de se tirar o título de eleitor pela primeira vez ou atualizar o cadastro na Justiça Eleitoral, no caso de alterações, até o dia 9 de maio, para poder votar nas eleições municipais de outubro.

Clique aqui para assistir o vídeo.

Até aí, nenhuma novidade. Mas chamou-me a atenção o filme “Jovens Guerreiros”. Produzido pela agência Fields Comunicação e pela Cara de Cão Filmes, a peça, em preto e branco, tem o seguinte texto:

O que é uma pedra para um guerreiro?
O que são gotas para quem só pensa em vencer?O que são noites para quem tem prova?O que é atraso para quem tem paciência?Quem vence uma luta, ganha o dia.Neste caso, quatro anos.Jovens guerreiros, acordem!Se você vai completar 16 anos até 7 de outubro, tire o seu título de eleitor.O voto é obrigatório aos 18 anos, mas é um direito já a partir dos 16.
Procure um Posto da Justiça Eleitoral até 9 de maio, levando um documento de identidade com foto e comprovante de residência.
Justiça Eleitoral.
Brasileiro que vota, não foge à luta.

Nenhuma grande surpresa no texto.
O que surpreende positivamente são as imagens. Nelas, estão brasileiros que não estamos acostumados a ver na TV, mas que têm tanto direito de votar quanto qualquer outro.

O primeiro que aparece é um rapaz com síndrome de Down, e o outro um jovem com albinismo.  Além deles, outros brasileiros. Como eles.
Há anos os anúncios da Justiça Eleitoral já atendem às regras de acessibilidade, com legenda e janela de libras, assim como os programas e propaganda eleitorais dos candidatos e partidos também devem por lei ser acessíveis.
A publicidade inclusiva é uma forma de promover a inclusão de segmentos excluídos na sociedade, induzindo a presença de seus membros em comerciais de TV. A ideia é, por meio da propaganda, ajudar a construir no imaginário do público a noção de que aquelas pessoas pertencem ao coletivo. Funciona muito melhor do que qualquer campanha específica, porque a imagem é transmitida de forma natural. Além disso, não custa nada além do valor normal do filme – e de quebra emprega atores que antes não tinham muita possibilidade de trabalho.
Parabéns à Justiça Eleitoral pelo esforço de tornar sua propaganda inclusiva, mostrando que, também na publicidade, os direitos devem ser iguais.