segunda-feira, 16 de junho de 2014

Livro desvenda a ciência do humor e de sua ligação com a inteligência

Fonte : http://veja.abril.com.br/noticia/ciencia/o-riso-e-tao-importante-para-nossa-vida-quanto-a-inteligencia-ou-a-criatividade

Livro desvenda a ciência do humor e de sua ligação com a inteligência

"O riso é tão importante para nossa vida quanto a inteligência ou a criatividade"

Scott Weems
Para o pesquisador americano Scott Weems, rir é um dos mecanismos essenciais para nossa evolução e sobrevivência(Laura Hartline )

Rir nos torna mais inteligentes, criativos e saudáveis, segundo o neurocientista cognitivo Scott Weems. Nesta entrevista, ele conta como isso acontece e explica de que maneira algumas gargalhadas revelam crenças e preconceitos e oferecem soluções inéditas para nossos problemas

Rita Loiola

Assim que o Instituto de Pesquisa Econômica e Aplicada (Ipea) admitiu o erro de sua pesquisa que dizia que os brasileiros apoiavam ataques a mulheres, a reação foi instantânea: uma enxurrada de piadas. Bastaram poucos segundos para que, no último dia 4, as redes sociais fossem invadidas por anedotas zombando da porcentagem que mostrava que 26% e não 65% concordam com a frase "mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas". Para o neurocientista cognitivo americano Scott Weems, só mesmo sonoras gargalhadas seriam capazes de resolver o conflito entre o equívoco grosseiro, as reações exaltadas, o machismo e a realidade do episódio. O humor é única forma que nosso cérebro encontra para lidar com diversas informações contraditórias ao mesmo tempo, segundo ele.

"As pessoas contam piadas há milhares de anos para lidar com desafios e conflitos", diz o pesquisador da Universidade de Maryland, nos Estados Unidos, que estuda o funcionamento do cérebro há doze anos. "O humor revela muito sobre nossa humanidade, sobre como pensamos, sentimos e nos relacionamos com o próximo."

Em seu primeiro livro, Ha! – The Science of when we laugh and why (Há! – A ciência de quando rimos e por que, sem tradução em português), lançado em março nos Estados Unidos, Weems sustenta que o riso é o resultado da longa batalha cerebral entre emoções e pensamentos opostos. Ao chegar ao ápice da confusão, sem nenhuma alternativa de solucioná-la, rimos. E, assim, não só reconciliamos as ideias contrárias como enxergamos respostas.

Analisando a piada — Em suas pesquisas, Weems descobriu que o humor é o segredo de pessoas inteligentes e criativas para suas associações rápidas e inesperadas. No livro, reúne suas conclusões a outros estudos e traça um mapa que busca compreender o papel das risadas em nossa vida. Começa mostrando como a dopamina, o neurotransmissor ligado ao prazer e o responsável pela alegria, nos fez o que somos: seres em busca de emoção e de novas maneiras de melhorar a vida. Rindo, se possível.

Ao longo do livro, o pesquisador demonstra como o humor dá novas perspectivas às experiências vividas e revela aspectos sutis da realidade que, de outra forma, permaneceriam escondidos. "Suspeito que o humor nunca tenha sido respeitado. E isso é uma vergonha", afirma o cientista. Nesta entrevista ao site de VEJA, Weems explica por que não levamos o humor a sério e conta como piadas e anedotas são a chave para atingir pensamentos sofisticados e nos tornar mais saudáveis e criativos.

Por que costumamos explodir em risadas frente a situações constrangedoras? Nossa mente transforma ambiguidade e confusão em prazer. O cérebro é lugar cheio de conexões e ideias competindo por atenção. Isso nos leva a raciocinar, mas também traz conflito, pois às vezes temos duas ou mais ideias inconsistentes sobre o mesmo assunto. Quando isso acontece, nosso cérebro só tem uma coisa a fazer: rir.

E isso resolve alguma coisa? Gostamos de trabalhar em meio a essa confusão e rimos quando chegamos a uma solução. O humor traz respostas súbitas, que chegam por vias diferentes do pensamento lógico e analítico. Cada vez que rimos de uma piada é como se tivéssemos um pequeno insight, pois pensamos algo inédito. E isso só dá certo porque o processo nos alegra — uma mente entediada é uma mente sem humor.

Isso quer dizer que pessoas que gostam de respostas prontas são as mais mal-humoradas? Sim. Há uma forte relação entre ser curioso, gostar de se aventurar intelectualmente e ser bem-humorado. Se alguém quer explicar um ponto, conta uma história. Mas, se o objetivo é explicar mais de um ponto ao mesmo tempo, o ideal é contar uma anedota. Ter humor é olhar as coisas de uma maneira mais profunda. Pessoas com senso de humor fazem associações inesperadas muito rapidamente.

Mas rir frente a situações difíceis ou problemas não significa fugir deles? O humor nos leva a lugares emocionais e cognitivos novos. Mas isso não quer dizer que ele afaste as dificuldades ou sentimentos como raiva, revolta ou tristeza — ao contrário, ativa-os, junto a emoções positivas. Um estudo feito na Universidade da Califórnia mostrou que experimentamos várias emoções ao mesmo tempo. Rir ou contar piadas nos ajuda a expressar todos esses sentimentos misturados e a lidar com eles.

Ou seja, anedotas sobre tragédias como o 11 de setembro nos ajudam a superá-las? Logo após o ataque ao World Trade Center apareceram muitas piadas sobre a catástrofe. Lembro-me de uma delas com um gorila segurando aviões perto das torres gêmeas com a mensagem: onde estava o King Kong quando precisamos dele? Essas piadas mostravam raiva, claro, mas também frustração e até irreverência. Elas não tiravam sarro dos terroristas, mas, sim do processo de luto — lembro que o país suspendeu todos os programas de humor por dezoito dias até que, enfim, o programa Saturday Night Live foi ao ar. Rir nos conecta a outras pessoas para dividir nossas lutas, temores e confusões.  

Então piadas como as de humor negro fazem bem para a saúde? Esse tipo de humor nos torna mais saudáveis porque nos ajuda a lidar com deficiências, situações violentas ou macabras. Alivia e é divertido ao mesmo tempo em que é horrível. O humor é capaz de expressar nossas crenças mais assustadoras de uma maneira muito direta — e não estamos acostumados a isso.

Em outras palavras, piadas sexistas, sobre negros ou deficientes apenas ampliam preconceitos? Essa questão é muito importante. Anedotas preconceituosas dão voz a nossas crenças, sejam elas latentes ou escancaradas. Uma pessoa sexista só terá seus preconceitos ampliados por essas piadas enquanto alguém que não adota essas crenças terá mais convicção contra o preconceito. O humor, porém, sempre veicula mensagens múltiplas. Tudo depende da intenção.
Como assim? Alguém que não é machista pode contar uma piada machista com a intenção de caçoar dos homens machistas, não das mulheres. Ou um machista pode contar essa mesma piada com a simples intenção de ofender as mulheres.

E onde está a diferença? Na intenção e no alvo. Se o propósito é ofender, não há nada de engraçado nisso. Mas se o esquete é mais denso — como acontece quando o comediante negro Chris Rock satiriza o racismo — então devemos olhar essas anedotas em um nível mais profundo, porque sua intenção não é insultar e, sim, educar.

Você afirma, no entanto, que piadas ofensivas podem ter o propósito social de adiar a violência. Quando escrevi isso, quis dizer que elas adiam a violência física. Mas elas podem ser uma violência emocional. Não acredito que bullying ou ofensas sejam piadas. Apesar de serem atitudes próximas, creio que o humor seja, essencialmente, a maneira de nosso cérebro lidar com conflito. Atitudes ofensivas não trazem nenhum conflito interno.

Isso quer dizer que piadas ofensivas dizem mais sobre quem as conta do que sobre seus alvos? Certamente! Todo país tem seus alvos favoritos. Nos Estados Unidos, temos uma famosa: ‘por que os homens italianos usam bigodes? Para ficar parecidos com suas mães’.

O humor deve ser levado a sério? Levado a sério e respeitado. Surpreendentemente, durante grande parte da nossa história, o humor foi impopular. Platão [filósofo grego que viveu entre 428 a 348 a. C.] baniu o humor de sua República, dizendo que ele distraía o povo de assuntos mais sérios. Já Tomas Hobbes [filósofo inglês que viveu no século XVI] alegava que rir era uma parte necessária da vida, mas somente para pessoas de inteligência inferior. O problema é que há uma grande diferença entre algo sério e algo solene. É possível ser bem-humorado e sério, mas o humor é o oposto da solenidade — e, por isso, assumimos que ele não pode ser levado a sério. Acredito que esse é o motivo pelo qual ele demorou tanto a ser respeitado — o humor só se tornou um tópico científico em 1988, com a formação da Sociedade Internacional dos Estudos do Humor, nos Estados Unidos.

Foi aí que descobrimos que ele é fundamental? A área cerebral responsável pelo humor faz parte do sistema límbico, que regula emoções primordiais como medo ou raiva. São sentimentos essenciais para a sobrevivência. Rir é tão importante para nossa vida quanto a inteligência ou a criatividade. O humor evoluiu e se tornou o que é hoje porque, provavelmente, em algumas situações, se não pudéssemos rir, teríamos entrado em conflito ou morrido. Dar risada é parte fundamental do que somos.

Em um dos capítulos de seu livro, você comenta um estudo que diz que pessoas muito religiosas têm pouco senso de humor, talvez porque a religião seja um meio de diminuir conflitos. Há algum grupo que seja o mais sem graça de todos? Sem graça eu não sei, mas o psicólogo britânico Richard Wiseman tem um estudo fascinante em que mostrou diversas piadas a pessoas de diferentes nacionalidades, e os alemães riram de quase todas. Imagino que eles tenham um talento especial para extrair graça mesmo de coisas que não tenham humor algum.

Estudos demonstram que animais como ratos e chimpanzés podem rir. O propósito do humor animal é o mesmo dos humanos? Animais riem e têm humor. Seria muito antropocentrismo acreditar que só nós temos humor, sendo compartilhamos com outros animais as mesmas regiões cerebrais. Se rir é um processo para lidar com conflitos e confusões, então ele está em todas as criaturas que possuem cérebro.

O Brasil, assim como os Estados Unidos, viu vários comediantes serem criticados ou processados por suas piadas. Será que o humor como conhecemos vai acabar? Acho que ele está profundamente ferido, mas não diria que está morto. O humor é muito ligado às mudanças sociais e se transforma com elas. Nos anos 1980, quando tudo era exagerado — empresários queriam sempre mais dinheiro, mais trabalho — o humor também se tornou muito forte. Comediantes como Eddie Murphy ou Robin Williams não eram nada sutis. Esse tipo de graça não faz mais sucesso hoje, porque valorizamos mais a honestidade e a falta de pretensão. 

Atualmente, os atores pararam de contar anedotas simples para incluir narrativas e detalhes pessoais em seus esquetes. O humor dos próximos anos vai depender da evolução da sociedade.

Exoesqueleto frustra na Copa


Reprodução/TV Globo / Desempenho e aparição discreta gerou críticas ao exoesqueleto
Aparato robótico recebeu R$ 33 milhões de recursos públicos e foi anunciado como grande atração da abertura do Mundial, mas o resultado decepcionou
Foi uma questão de segundos. Enquanto um espetáculo chamava atenção do público e ao mesmo tempo o ônibus com a seleção brasileira entrava na Arena Corinthians – local da estreia da Copa do Mundo –, num canto do gramado um homem paraplégico ladeado por cientistas e um aparato robótico gigantesco tocava uma bola de futebol que rolou alguns poucos centímetros e foi apanhada por um ator que interpretava um árbitro.
A rápida demonstração prometia ser o grande momento da abertura da Copa: o exoesqueleto batizado BRA-Santos Dumont 1, desenvolvido por uma equipe de cientistas capitaneado pelo neurocientista brasileiro Miguel Nicolelis, fez com que o usuário, o atleta Juliano Pinto, de 29 anos, movesse suas pernas com um comando emitido por sua própria mente.
Críticas
Comunidade científica põe em dúvida eficácia do aparato de Nicolelis
Cadeirantes e cientistas procurados pela imprensa brasileira também criticaram a exibição da máquina. “O que foi exibido ao mundo, infelizmente, é tudo o que já se sabia do exoesqueleto: uma dúvida profunda a respeito de todos os seus potenciais, desdobramentos e capacidades”, disse à revista Veja o jornalista paulistano e cadeirante Jairo Marques.
“Mesmo depois da demonstração não fica muito claro se isso será um avanço. A ciência, tradicionalmente, é movida por cientistas que publicam suas descobertas em revistas científicas rigorosas que promovem uma análise justa dos feitos dos cientistas. Isso ainda não foi feito com o projeto Andar de Novo”, criticou o neurocientista Daniel Ferris, da universidade de Michigan, dos Estados Unidos.
Outros cientistas também apontaram o fato de não haver publicações científicas que apontem os resultados dos testes feitos em humanos. Além disso, o método utilizado para o BRA-Santos Dumont 1 não é o mesmo em que o neurocientista Miguel Nicolelis baseia suas pesquisas.
Matéria do Estado de São Paulo aponta que a eletroencefalografia (EEG), já criticada pelo cientista, foi a base para a touca neural utilizada pelo atleta Juliano Pinto. O cientista trabalha há 15 anos com pesquisas de interface cérebro-máquina que têm como base os implantes corticais, que são mais invasivos e específicos, e menos seguros.
A empreitada, parte do Projeto Andar de Novo (Walk Again Project), desenvolvida pelo Centro de Neuroengenharia da Universidade Duke, na Carolina do Norte, e o Instituto Internacional de Neurociências de Natal Edmond e Lily Safra, recebeu apoio financeiro de R$ 33 milhões do governo federal e entregou menos do que prometia. Os textos publicados nos sites oficiais do mundial anunciavam que uma pessoa paraplégica chegaria ao estádio numa cadeira de rodas, levantaria e, após caminhar 25 passos, daria o pontapé inicial da Copa.
Controvérsias
Procurado pela reportagem, Nicolelis não quis dar entrevista. Em sua conta pessoal no Twitter, o neurocientista comemorou o feito. “We did it!” (“Conseguimos!”), escreveu em inglês. Fora do gramado, porém, o exoesqueleto não causou grande impressão.
Também no twitter, Nicolelis rebateu comentários feitos por internautas, que criticavam o alto custo do projeto e a falta de autonomia e de praticidade do exoesqueleto – o conjunto, sem contar o peso do usuário, tem cerca de 70 quilos. Nos vídeos de demonstração divulgados pelo laboratório do cientista, os pacientes caminhavam amparados por cabos suspensos o tempo todo.

http://www.gazetadopovo.com.br/copa2014/conteudo.phtml?id=1476384

quinta-feira, 12 de junho de 2014

Globo e FIFA dão rasteira em paraplégico

Por  em 12 de junho de 2014 http://meiobit.com/289783/globo-e-fifa-dao-rasteira-em-paraplegico/ 

GOL da Ciência brasileira!!!

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Assista: http://glo.bo/1s9dHNN

O dia 12 de junho de 2014 vai entrar para a história da ciência brasileira e da Finep. O chute simbólico dado por um paraplégico, que vestiu o exoesqueleto desenvolvido pelo cientista brasileiro Miguel Nicolelis, não inaugurou apenas a Copa do Mundo, mas se tornou um marco no desenvolvimento científico e tecnológico do país.

"A Finep se orgulha de ter investido R$ 33 milhões no projeto Andar de Novo, que vem sendo desenvolvido há cerca de dez anos. Foi um verdadeiro gol da ciência brasileira, que mostrou para o mundo do que é capaz. Acompanhamos os testes do exoesqueleto e sempre tivemos a melhor expectativa possível, e isso foi confirmado hoje", afirma o presidente da Finep, Glauco Arbix, ressaltando a importância do projeto ter sido pensado por um brasileiro. "A ciência do Brasil está na fronteira da geração do conhecimento". #AquitemFinep#AndardeNovo

O capitão da Seleção Croata, primeiro adversário do Brasil na Copa, mostrou seu carinho com as pessoas com deficiência intelectual

O capitão da Seleção Croata, primeiro adversário do Brasil na Copa, mostrou seu carinho com as pessoas com deficiência intelectual. O jogador, que é irmão de um jovem com síndrome de Down, recebeu o baiano João no treino da equipe, no último sábado. Segundo o capitão, a convivência com o irmão o tornou uma pessoa mais paciente e preocupada com os outros.

Confira: http://goo.gl/JOmaOF

Crédito da foto: Eric Luis Carvalho

Foto: O capitão da Seleção Croata, primeiro adversário do Brasil na Copa,  mostrou seu carinho com as pessoas com deficiência intelectual. O jogador, que é irmão de um jovem com síndrome de Down, recebeu o baiano João no treino da equipe, no último sábado. Segundo o capitão, a convivência com o irmão o tornou uma pessoa mais paciente e preocupada com os outros.

Confira: http://goo.gl/JOmaOF

Crédito da foto: Eric Luis Carvalho

Paraplégico chuta bola com exoesqueleto de Nicolelis, mas quase ninguém viu

  • Reprodução
    Paraplégico dá chute na Copa com exoesqueleto de Nicolelis
    Paraplégico dá chute na Copa com exoesqueleto de Nicolelis
Um brasileiro paraplégico chutou a Brazuca na abertura da Copa do Mundo de 2014, em São Paulo, nesta quinta-feira (12). Mas quase ninguém viu. A transmissão estava na festa e de repente mostrou o chute, com a bola já em movimento e o homem em pé com braço erguido. Um segundo e a câmera voltou para a festa.
O momento esperado da ciência, demonstra o exoesqueleto - uma estrutura metálica que dá sustentação e reage a comandos do cérebro, como andar e chutar - criado pelo neurocientista brasileiro Miguel Nicolelis. O estudo iniciado em 2009 tem sua primeira exibição pública. Os estudos científicos que embasam e explicam toda a tecnologia usada ainda serão publicados.
Na internet, muitas pessoas reclamaram da pouca exibição. A assessoria do pesquisador informa que este era realmente o chute combinado e que "deu tudo certo com o exo e o paciente".


Conheça as peças do projeto 'Andar de Novo'33 fotos

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O neurocentista brasileiro Miguel Nicoleis (esquerda) trabalha no exoesqueleto BRA-SANTOS DUMONT I, que será usado por um paraplégico para caminhar e dar o primeiro chute da Copa do Mundo de 2014. O exoesqueleto comandado pelo cérebro funciona com os comandos da mente. Para Nicolelis, a iniciativa é o começo de um futuro em que pessoas com paralisia poderão abrir mão de cadeiras de rodas. O projeto recebeu R$ 33 milhões reais de financiamento da Finep, empresa pública do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) Divulgação
Segundo o pesquisador, os testes foram concluídos com sucesso no último dia 28 de maio: "o exoesqueleto, sobre comando da atividade cerebral de um operador, realizoumovimentos naturais e fluidos que produziram, em todos os pacientes, a sensação de que eles estavam caminhando com as próprias pernas".
A interface cérebro-máquina é feita por meio de uma touca com eletrodos que captam os sinais elétricos do couro cabeludo, com a técnica do eletroencefalograma (EEG), de forma não invasiva. De acordo com Nicolelis, esse procedimento é suficiente para impulsionar, com o exoesqueleto, a realização de movimentos de membros inferiores. Os sinais cerebrais dos pacientes que usaram o exoesqueleto foram processados em tempo real, decodificados e utilizados para mover condutores hidráulicos.
O Projeto Andar de Novo é um consórcio formado por universidades e institutos de pesquisa do mundo todo, sob o comando científico do neurocientista brasileiro. O objetivo do projeto é desenvolver uma tecnologia de interface cérebro-máquina que permita a pessoas com mobilidade restringida – como paraplégicos – voltar a andar usando a mente para controlar um equipamento externo, que substituiria os membros inferiores. 

Veja pesquisas de Miguel Nicolelis - 15 vídeos


Fase 1: desenvolvimento da interface cérebro-máquina

A partir de 2001, o pesquisador brasileiro começou na Universidade Duke, na Carolina do Norte, Estados Unidos, a primeira etapa do projeto, que foi desenvolver uma interface cérebro-máquina, uma tecnologia que fosse capaz de ler os sinais elétricos produzidos pelos neurônios do cérebro e, a partir deles, propiciar o controle motor que pudesse ser usado por uma máquina. Como o experimento em que um macaco vê pontos no computador e mexe braços mecânicos ou virtuais na direção dos pontos.
O segundo passo foi a chamada resposta tátil, ou seja, mandar os sinais de volta do robô para o cérebro.
Os primeiros testes foram feitos em animais, ratos e macacos. Em outro estágio do desenvolvimento das pesquisas, pela primeira vez esses animais conseguiram diferenciar texturas diferentes dos objetos, por meio da estimulação elétrica dos seus cérebros.

Fase 2: o exoesqueleto

Então, foi a hora de criar uma espécie de robô, chamado de exoesqueleto (esqueleto externo), para sustentar a pessoa em pé e realizar os movimentos. Ele permite a interação em tempo real entre o cérebro e a roupa.
As pesquisas para o desenvolvimento da roupa robótica começaram em 1999 e contaram com pesquisadores de todo o mundo. O trabalho de robótica foi coordenado por Gordon Cheng, da Universidade Técnica de Munique. O sistema foi desenvolvido na França e testado no Brasil.
O exoesqueleto foi batizado de "BRA-Santos Dumont I", em homenagem a quem Nicolelis considera o maior cientista brasileiro de todos os tempos.
Funciona como um controle compartilhado, em que o cérebro gera mensagens que expressam o desejo do operador de movimento, como por exemplo "eu quero andar", "eu quero parar", "eu quero chutar a bola". Esses comandos mentais interagem com os controles das articulações do exoesqueleto para fazer com que os movimentos sejam gerados. E este dá respostas ao cérebro como: "pisei", dei um passo".
O exoesqueleto está equipado com vários giroscópios que impedem quedas durante o movimento.

Fase 3: sensação tátil de andar novamente

Para que o ato de caminhar seja o mais próximo da realidade, os pesquisadores também desenvolveram uma forma de restabelecer a sensação tátil nos membros paralisados. Para isso, foi desenvolvido uma tecnologia de feedback tátil, ou pele artificial, peça fundamental para propriocepção (capacidade de reconhecer a localização espacial do corpo) dos membros inferiores dos pacientes que usarão o exoesqueleto para caminhar novamente.
A pele artificial, desenvolvida pelo grupo de pesquisadores de Gordon Cheng, é formada por placas flexíveis de circuitos integrados, cada uma delas contendo sensores de pressão, temperatura e velocidade. Ela é aplicada na planta dos pés para que o paciente, ao andar com o exoesqueleto, receba, a cada toque dos pés no chão, um estímulo tátil enviado a uma região da parte superior do corpo, como os braços.
Com essa transmissão dos pés para os braços, o cérebro dos pacientes é induzido a remapear as sensações táteis e reestabelecer a sensação de pisar o chão caminhando como se não possuísse paralisia.
O paciente vestirá uma camisa durante a demonstração na cerimônia de abertura da Copa do Mundo, para receber as informações táteis gerada pela pele artificial na superfície dos braços. Essa camisa foi desenvolvida pelo grupo do Dr Hannes Bleuler, da EPFL, em Lausane, Suíça.

Fase 4: os testes com pacientes

O próximo passo foi testar o exoesqueleto com pessoas. Os primeiros testes clínicos do grupo de oito pacientes começaram a ser realizados em janeiro de 2014, no laboratório AASDAP/AACD, inaugurado em novembro de 2013 em São Paulo. Os procedimento de treinamento clínico foram coordenados por uma equipe clínica liderada pela médica brasileira Lumy Sawaki, da Universidade do Kentucky.
Inicialmente, esses pacientes interagiram com um simulador virtual, gerado por computador. Nesse ambiente, os pacientes puderam usar um simulador robótico de marcha que os permitiu andar sobre uma esteira ao mesmo tempo em que viam, usando um óculos de realidade virtual, um avatar que reproduzia os mesmos movimentos.
Durante esse treinamento, os pacientes também receberam feedback tátil dos passos do avatar por meio da pele artificial que emite impulsos vibratórios mecânicos na região do corpo em que eles têm sensibilidade, como o antebraço, por exemplo. Com isso, seus cérebros aprenderam novamente a sentir as pernas e pés. Os testes também incluíram simulações em um ambiente virtual com os mesmos ruídos verificados numa partida de futebol com o estádio lotado.
Após a conclusão dos testes virtuais, começaram os treinamentos com o exoesqueleto. No dia 29 de abril de 2014 um dos pacientes conseguiu dar os primeiros passos com a veste robótica, usando somente o cérebro para os comandos. Até o dia 20 de maio, os pacientes já tinham dado, em média, 120 passos com o exoesqueleto cada um. 

Demonstração na Copa do Mundo

Na cerimônia de abertura da Copa do Mundo haverá uma demonstração de todas as tecnologias produzidas pelo projeto Andar de Novo nos últimos 17 meses. Um dos oito pacientes da AACD (Associação de Assistência à Criança Deficiente) que participaram dos testes clínicos será encarregado de um "chute simbólico" da Brazuca (nome da bola oficial do torneio) movimentando o exoesqueleto somente com a atividade cerebral, assim como ocorreu no laboratório na fase de testes com humanos.
A iniciativa será uma apresentação da pesquisa e não faz parte do estudo científico. O objetivo é aproximar a ciência da população brasileira e de todo o mundo: uma audiência estimada na casa dos bilhões de pessoas.
Para realizar essa proeza, todo o sistema desenvolvido pelo projeto Andar de Novo passou por inúmeros testes de segurança, um deles realizado em 15 de março no estádio do Pacaembu. No gramado, neuroengenheiros do projeto obtiveram registros da atividade elétrica cerebral antes, durante e após a partida Palmeiras x Ponte Preta, pelo Campeonato Paulista.

Financiamento

No Brasil, a operação do Andar de Novo é liderada pelo IINN-ELS (Instituto Internacional de Neurociências de Natal – Edmond e Lily Safra) e conta com a parceria da AACD (Associação de Assistência à Criança Deficiente), em São Paulo.
Em janeiro de 2013, o projeto recebeu investimento de quase R$ 33 milhões da FINEP (Financiadora de Estudos e Projetos), que propiciou os recursos necessários para a realização da fase clínica do projeto e a organização do laboratório AASDAP/AACD em São Paulo, onde um grupo formado por neurocientistas, engenheiros e pessoal clinico trabalha diuturnamente no desenvolvimento de uma nova tecnologia de neuroreabilitação conhecida como exoesqueleto controlado pela mente.

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