sexta-feira, 5 de junho de 2015

São Paulo pelos olhos de quem não vê

O repórter Lucas de Abreu Maia, cego desde a infância, conta como ele e outros deficientes visuais constroem uma relação particular com uma metrópole muitas vezes hostil a pessoas nessa condição, mas também cheia de sons, cheiros e outras sensações surpreendentes

Por: Lucas de Abreu Maia (com colaboração de Alessandra Freitas)

COMPORTAMENTO

São Paulo pelos olhos de quem não vê

O repórter Lucas de Abreu Maia, cego desde a infância, conta como ele e outros deficientes visuais constroem uma relação particular com uma metrópole muitas vezes hostil a pessoas nessa condição, mas também cheia de sons, cheiros e outras sensações surpreendentes

Por: Lucas de Abreu Maia (com colaboração de Alessandra Freitas)
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Abreu, no Viaduto do Chá, e o cão-guia Jackie: “Com ela e um iPhone, não há lugar aonde eu não chegue” (Foto: Fernando Moraes)
Desvendar a alma de uma cidade se você não pode vê-la é um exercício de abstração. A partir do desenho das calçadas, do som dos carros reverberando no concreto, do tom de voz dos moradores, do sol (ou da falta dele) na pele, do cheiro — de lixo, de gente, de mato e, aqui, de forma proeminente, de fumaça — e da opinião de quem enxerga, aprendemos a criar uma relação individual e única com o lugar em que moramos. É assim que eu e cerca de 53 000 habitantes cegos (0,44% da população, fora os 292 000 com “grande dificuldade” de enxergar, segundo o Censo de 2010) lidamos com a capital todos os dias: vivenciando-a com os demais sentidos. Quando VEJA SÃO PAULO me convidou para falar sobre a metrópole vista por quem não pode descrevê-la com os olhos, aceitei sabendo que minhas histórias não seriam suficientes. Fui conversar com outros deficientes visuais, que me relataram cenas de independência e diversão, de irritação e perigo. Descobri personagens como um mecânico de automóveis que tem precisão invejável no manejo das peças e uma jovem fashionista ligadíssima na aparência, que vasculha shoppings em busca de roupas descoladas. 
Tenho 29 anos, nasci em Vitória, no Espírito Santo, mas cresci no interior do Rio. Na infância, São Paulo significava para mim vir a consultas regulares ao oftal­mologista com o objetivo de acompanhar a evolução da minha doença. Aos 7 meses, um profissional daqui fez o diagnóstico: eu nascera com amaurose de Leber, um problema genético encontrado em um em cada 80 000 nascidos vivos. As células da retina das pessoas que possuem a doença param de se reproduzir e, com isso, o mundo ao redor vai ficando mais escuro. Aos 8 anos, as visitas à capital tornaram-se desnecessárias. Os cerca de 10% de visão que eu tinha esvaíram-se sem que eu sequer notasse.
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Pedro Gabriel Cruz, de 10 anos, no Parque Villa-Lobos: após cair num vão entre o trem e a plataforma, ele prefere percorrer longas distâncias de carro, com a família (Foto: Ricardo D'Angelo)
As memórias gráficas que me acompanham são poucas e pitorescas: meu reflexo no espelho, com o cabelo liso parecendo o de um índio com corte de cuia; uma foto da apresentadora Xuxa usando boina; a atriz Claudia Ohana na capa da fita cassete da trilha sonora da novela Vamp. Graduado em jornalismo aos 23 anos, pela PUC-RJ, eu me mudei para cá a fim de fazer um curso no jornal O Estado de S. Paulo, no qual me empreguei como repórter de política há seis anos. No fim de 2014, ingressei na revista EXAME, da Editora Abril, mas acabo de deixar o cargo para cursar doutorado na Universidade da Califórnia — já havia feito mestrado em Chicago. Escrevo este texto com a ajuda de um programa que lê, em áudio, tudo o que digitei.
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A psicóloga Maria Rita de Paiva, no Iguatemi: preocupação com se vestir bem para aliviar o preconceito (Foto: Fernando Moraes)
A relação entre os cegos e São Paulo é bem paradoxal. Existem locais como oMuseu do Futebol, com profusão de recursos táteis (incluindo o rosto de Pelé), mas há poucas peças teatrais com audiodescrição. Pelas ruas, raramente um município muda tão súbita e completamente de um bairro para outro. Na Avenida Paulista, o passeio é largo, com piso tátil bem cuidado. A dois quarteirões, porém, começam as ladeiras dos Jardins e suas dezenas de degraus. Em muitos trechos da Zona Norte, por exemplo, o lixo e os buracos ocupam o espaço que deveria ser de quem caminha. Em toda a cidade, os quarteirões tortuosos transformam os bairros em labirintos. “Mas o pior, para mim, é a qualidade das calçadas”, contou-me Luiz Alberto de Carvalho e Silva, de 59 anos, economista. “São tão irregulares que até os cães-­guia se desorientam.”
Encontrei Silva no início de maio em seu apartamento, na região da Vila Mariana. Ele é conhecido como o primeiro usuário de cão-guia no Brasil ao treinar seu animal, por conta própria, nos anos 70. Com memória ímpar, conhece nomes de ruas dos quatro cantos. “Imagino São Paulo como se eu voasse por ela, projetando grandes mapas na minha cabeça e percorrendo-os aos poucos.”
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O mecânico Pedro Silva: o melhor funcionário da oficina, de acordo com o patrão(Foto: Mario Rodrigues)
Andar sozinho por aqui se tornou bem mais fácil nos últimos anos com o auxílio de aplicativos de localização com orientação em áudio, como o Blind Square. Ele informa sobre os lugares por onde o usuário passa, a exemplo de lojas, lanchonetes e estações. Há também o TapTapSee, que descreve o que você fotografa, indicando se está diante de um cachorro, um bosque... Apesar dessas ferramentas, porém, os perigos continuam. “Há alguns anos, na Zona Leste, caí em um bueiro que estava fechado com uma tábua”, relata o psicólogo Everton Oliveira, de 25 anos. “Uma perna inteira entrou no buraco, e me agarrei no asfalto para não ir até o fundo.” 
Com Pedro Gabriel Cruz, de 10 anos, houve um susto maior. Ele perdeu a visão aos 5, em consequência de uma meningite. Aos 7, ao entrar em um vagão na Estação Santo Amaro da CPTM, ao lado da mãe, caiu no vão entre o trem e a plataforma. Foram momentos de desespero, temendo que o maquinista desse a partida. “Um passageiro me ajudou a sair de lá e, no fim, só ralei a perna e ganhei alguns roxos”, lembra. O garoto faz de tudo para levar uma vida normal: adora andar de bicicleta noParque Villa-­Lobos e cursa o 2º ano do ensino fundamental no Colégio Vicentino Padre Chico, no Ipiranga, especializado em deficientes visuais. Do transporte público, no entanto, ficou o medo (reforçado pelo caso de um cego que morreu em abril ao cair na Estação Sé do metrô), e sua mãe tirou carta de motorista para conduzi-lo de automóvel. “Consigo reconhecer os caminhos que faço pela mudança no balanço do carro, pelas passagens nos quebra-molas”, diz. “E também através dos cheiros. Se farejo pastel frito, sei que estamos perto da feira.”
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Everton Oliveira (de camisa rosa, entre amigos em uma casa de karaokê): chateação quando as mulheres “sentem pena” (Foto: Fernando Moraes)
Há um tipo de local campeão de confusão: os shoppings. Trata-se de prédios onde fica quase impossível estabelecer pontos de referência (obviamente, para nós, as vitrines serão sempre idênticas). Além disso, como são ambientes fechados, os sons reverberam e prejudicam nossa orientação. Fazer compras on-line é a opção preferencial da maioria, graças aos leitores de tela em computadores e celulares (que nos permitem usar ativamente Facebook, Twitter, WhatsApp...). Aficionada de moda, a psicóloga Maria Rita de Paiva gosta de encarar os grandes centros de varejo, mas pede ajuda a um funcionário (eu faço o mesmo quando vou ao supermercado, solicitando que me descrevam o que há em cada prateleira enquanto passo com o carrinho).
No fim do mês passado, eu a acompanhei no Iguatemi. Chegamos para almoçar noRitz e a medida imediata dos garçons foi nos trazer dois cardápios em braile. Nós os dispensamos e pedimos que narrassem para nós as opções. Primeiro porque nem eu nem ela dominamos bem a linguagem. Além disso, com frequência, os estabelecimentos não atua­lizam variações de preços e itens dos menus, tornando-os peças inúteis. Por vontade de Maria Rita, seguimos para a C&A. Seu cão-guia, Milo, ficava deitado aos seus pés enquanto uma vendedora lhe entregava as peças, uma a uma, para que as tocasse. Depois de apalpar e ouvir a descrição de umas três dezenas delas, experimentou oito e comprou quatro. A moda, para ela, é uma maneira de se afirmar diante de um mundo cheio de expectativas preconcebidas sobre uma mulher cega. “As pessoas se surpreendem por eu me vestir bem”, diz. 
Pedro de Carvalho e Silva, de 54 anos, também costuma deixar as pessoas de queixo caído. Ele é mecânico em uma oficina da Aclimação. Sem ver nada desde os 3 anos, sempre foi louco por carros e começou no ramo aos 25. Reconhece rapidamente as peças ao manuseá-las e contabiliza um único acidente — em 2003, perdeu a ponta do dedo médio da mão direita ao tentar consertar o motor de uma Kombi. Rejeição, recorda, sofreu uma única vez, quando uma cliente disse que não queria que pusesse a mão no seu bem. “O chefe falou que a empresa era dele e que eu era o melhor funcionário”, orgulha-se. Pedro fez, então, o serviço e não houve reclamação.
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A psicóloga Maria Rita de Paiva, no Iguatemi: preocupação com se vestir bem para aliviar o preconceito (Foto: Fernando Moraes)
“O primeiro passo para entender o problema do veículo é usar a minha audição, que ficou bem aguçada ao longo da profissão. Depois, recorro ao tato”, descreve. Não há, afirma, um tipo de automóvel em que o desafio seja maior. “Ao longo do tempo, a eletrônica passou a ser mais utilizada em outros modelos, mas me adaptei bem. Obviamente, eu só não poderia lidar com pintura.”
Ter a capacidade subestimada é algo chatíssimo. Aguentar a pena alheia é cruz mais difícil de carregar que a própria cegueira. Diferentemente do que reza o clichê, o paulistano — mais que o morador de qualquer outra cidade que eu conheça — oferece ajuda o tempo todo. Mas, achando que estamos perdidos, alguns nos puxam pelo braço e nos levam por um caminho que julgam ser o correto. Não se passa um dia sequer sem que eu ouça: “Rapaz, está indo pelo lugar errado!”. Uma dica: prontifique-se a colaborar, sim, por favor. Mas não seja inconveniente.
O voluntarismo dos “enxergantes” (é como nós chamamos você, leitor) mostra-se idêntico com bengaleiros e usuários de cão-guia. Quem tem um cachorro em vez de olhos, porém, é obrigado a lidar ainda com a curiosidade das outras pessoas. “Muitos adoram o lado social que eles trazem, mas eu dispenso”, diz Maria Rita. “A toda hora, preciso chamar a atenção do animal por algo que fez de errado e alguém me interrompe, atrapalhando o processo.” Eu entendo a irritação dela. Certa vez me abordaram no meio de um término de namoro, ambos os lados chorando copiosamente depois da famosa DR, para virem com a bateria de perguntas, como “de que raça ele é?”.
O orientador de coleira não é uma possibilidade para qualquer um, uma vez que há pouquíssimos treinadores de guias no Brasil. Prepará-los chega a custar mais de 100 000 reais. E o pet especial pode simplesmente não se encaixar na rotina da pessoa. Everton, por exemplo, desistiu desse auxílio por não gostar de ser restringido pelos cuidados que o bicho demandaria. A telefonista Esvana Leandro, de 39 anos, moradora de Jandira, na Grande São Paulo, tem verdadeira devoção ao bicho do marido, também não “enxergante”, mas dispensa um para si: “Vivemos numa região em que as pessoas não respeitam os cachorros”. Usuária de bengala, ela já se deu mal ao seguir confiante pelo piso tátil da Avenida Paulista: trombou com um ambulante que havia montado sua barraquinha em cima da faixa. “E fui xingada por ele.”
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No Museu do Futebol, o casal Camila Domingues e Leonardo Gleison descobre na maquete os contornos do Pacaembu: um dos endereços convidativos a quem precisa se valer do tato(Foto: Fernando Moraes)
A experiência de Esvana mostra que a vida de um casal de cegos é menos complicada do que pode parecer. Morei sozinho no passado e acho mais fácil do que ter no dia a dia a companhia de alguém sem a deficiência, como é meu caso hoje. Individualmente, crio um mapa mental do imóvel, separo as roupas entre as que uso em casa e as de sair, cozinho, faço faxina, e tudo funciona bem. Quando o espaço é dividido com alguém, invariavelmente as coisas são tiradas do lugar onde deixei.
Ainda na área de relacionamentos: o sexo, o amor e a beleza interagem de forma peculiar na vida de quem não enxerga. Um corpo definido, claro, é especialmente valorizado. Um abraço ou um tapinha no ombro são os truques mais comuns para entender se o alvo de interesse é mais musculoso, cheinho, magricelo. Por ego, boa parte dos deficientes visuais recorre aos amigos para avaliar a beleza do pretendente. Além disso, a autoimagem é formada com base nos comentários alheios. Para alguns, desconhecer a própria aparência é uma eterna causa de insegurança. Outros, porém, reagem com indiferença a isso — a obesidade é endêmica entre nós. 
Temos de lidar com as falsas expectativas: é comum as pessoas acharem que somos criaturas de pura bondade, indefesos e assexuados. “Muitas mulheres nos veem como coitados”, queixa-se o psicólogo Everton Oliveira. É que, embora pensemos na falta de visão como uma condição que nos torna iguais, somos um grupo tão diverso quanto qualquer outro. Há jovens e velhos, gordos e atletas, gays e héteros, tímidos e descontraídos, dependentes e autônomos. Gostam de chamar nossas necessidades de especiais. A principal delas, no entanto, é universal: o respeito à individualidade. 
Revolução digital 
Aplicativos que mudarama vida dessas pessoas
Google Maps - Com ele é possível formular trajetos a pé e de transporte público. As orientações para o trajeto a pé são excelentes e permitem que o usuário chegue sozinho a qualquer lugar.
BlindSquare — Uma espécie de FourSquare para cegos. O aplicativo lê em voz alta tudo o que está ao redor do usuário, à medida em que ele vai andando. As descrições incluem restaurantes, edifícios comerciais, escolas e parques.
TapTapSee — Descreve, de forma genérica, qualquer foto que o usuário inserir no aplicativo. Assim, é possível para a pessoa cega saber a cor da roupa que está usando ou qual a vista de uma janela.
Voice Dream Reader — Facilita a leitura de livros no celular. O aplicativo aceita arquivos de texto nos mais diversos formatos e permite regulagem da velocidade da leitura.
Maneiras de tirar do sério alguém que não enxerga
Atitudes desagradáveis, comuns no cotidiano, segundo os cegos 
1 - Sem oferecer ajuda para atravessar a rua, agarrar o cego pelo braço e arrastá-lo pelo caminho.
2 - O mesmo vale para ajudá-lo a se sentar sem que ele solicite. Uma coisa é não enxergar, outra é ter dificuldade motora.
3 - Fazer comentários em voz alta sobre o cego ao passar por ele. É deficiente visual, não auditivo.
4 - Em vez de fazer perguntas diretamente a ele, como seu nome ou o que gostaria de comer, dirigir-se sempre a seu acompanhante.
5 - Decidir, sem consultá-lo, que determinada atividade física (como corrida) é muito perigosa para ele. Cada pessoa conhece os próprios limites.
6 - Tomar cuidado excessivo, o tempo todo, para não usar verbos como “ver” e “olhar”. Por exemplo: pedir desculpas por ter indagado se o deficiente “viu um filme”.
7 - Repetir o tempo todo a surpresa por ele trabalhar, divertir-se, namorar, ter filhos. O cego não quer necessariamente ser tratado como uma lição ambulante de superação.
http://vejasp.abril.com.br/materia/deficientes-visuais-relacao-cidade-sao-paulo-cegos

quarta-feira, 3 de junho de 2015

A cena da novela "Sete Vidas", na qual a personagem Lúcia fala sobre seu filho com síndrome de Asperger

A cena da novela "Sete Vidas", na qual a personagem Lúcia fala sobre seu filho com síndrome de Asperger
Mãe de Luís e Laila, gerados via doador anônimo de sêmen. É brasileira, mas viveu por muitos anos na Califórnia, onde teve uma escola de arte-educação de grande prestígio. É independente, libertária. Recusa-se a se curvar ao…
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terça-feira, 2 de junho de 2015

Na cadeira de rodas, menino de seis anos emociona ao dançar com coleguinha

http://globotv.globo.com/rede-globo/encontro-com-fatima-bernardes/v/na-cadeira-de-rodas-menino-de-seis-anos-emociona-ao-dancar-com-coleguinha/4223646/

Empecilhos para a inclusão


http://www.bemparana.com.br/noticia/388937/empecilhos-para-a-inclusao
Na sala de aula, trabalho do profissional é ser apoio para o professor: Paraná tem 581 intérpretes de Libras (foto: Valquir Aureliano)
Apesar dos avanços, ainda há diversas questões que precisam ser solucionadas na área da educação para garantir a inclusão, a acessibilidade plena do aluno dentro da escola. E um dos maiores problemas é a falta de intérpretes no mercado. Muitos profissionais acabam procurando outras áreas para trabalhar.
O governo tem investido na oferta de cursos e conseguiu nos últimos anos aumentar o quadro de profissionais — atualmente existem 581 intérpretes trabalhando nas escolas do Paraná, enquanto em 2009 eram 354 (uma variação positiva de 64,12% em seis anos) —, mas ainda está longe de suprir a demanda.
No Instituto Erasmo Pilotto, por exemplo, 11 intérpretes atendem as 11 turmas que possuem alunos surdos. Quando algum dos profissionais falta, os estudantes acabam tendo de “se virar nos 30”, já que não há substitutos. Na Escola Erasmo Pilotto isso até não chega a ser uma dificuldade maior, porque parte dos alunos mais velhos consegue “quebrar o galho” numa emergência.
“Como muitos profissionais acabam procurando outros locais de trabalho que não a escola, acaba acontecendo dos alunos não terem intérprete”, admite Fabiana Ceschin Ribas, da área de surdez do DEEIN.
“As vezes acontece de os intérpretes não estarem disponíveis desde o começo do ano ou então faltar por motivos de saúde e acabamos ficando sem esses profissionais dentro da sala de aula. Isso gera um prejuízo para os alunos, então ainda precisamos melhorar, aprimorar, mas já está muito melhor do que foi”, complementa o diretor-auxiliar do Instituto Erasmo Pilotto, Lourival de Araujo Filho.
Outro problema é a falta de preparo dos próprios professores, o que, naturalmente, causa dificuldades no processo de ensino-aprendizagem dos alunos surdos. A maior dificuldade na comunicação, porque às vezes, mesmo tendo o intérprete em sala, o professor não se dirige ao aluno, se dirige ao intérprete. Ele (professor) tem de fazer uso de recurso visual dentro de sala de aula, o que também vai favorecer o ouvinte. As pessoas, mesmo os professores, não tem o cuidado de aprender, conhecer, pesquisar”, critica Fabiana.

Maiores dificuldades dos aluno
No final de 2006, um estudo feito por cinco pesquisadoras da Universidade Tuiuti do Paraná apontou que as maiores dificuldades dos estudantes surdos, segundo os professores, seriam a elaboração, compreensão e interpretação textual, a dificuldade para se entender o conteúdo e para se interagir, a falta de preparo dos professores e a falta de interesse dos próprios alunos. O estudo mostrava que as principais dificuldades citadas relacionavam-se à falta de conhecimento de estratégias para a surdez, e a falta de compreensão do surdo.
Quase 10 anos depois, a situação não parece ter mudado muito. Segundo Lourival Araujo Filho, cerca de 70% dos alunos surdos entram na escola sabendo nada ou muito pouco de Libras, o que acaba acarretando em outras dificuldades. "Eu percebo que a maior dificuldade é ainda a questão da linguagem voltada ao português, porque nossa língua é a portuguesa e quando há a tradução acaba havendo uma deficiência no conhecimento que essa criança traz desde a infância. Muitas vezes há uma perda porque não houve estímulo", afirma Lourival.
Cursos — Além dos cursos ofertados pelo Estado, instituições como a Universidade Federal do Paraná (UFPR), a Faculdade de Ensino Superior (FESP), a FAE, o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai) e a Federação Nacional de Educação e Integração dos Surdos (Feneis-PR) também ofertam o ensino de libras — a FESP, inclusive, oferece o curso gratuitamente para alunos e a comunidade.

Inclusão em alta
Entre 1998 e 2010 o número de alunos especiais matriculados em escolas comuns cresceu 1.000% no País. Em 1998, somente 43,9 mil dos 337,3 mil alunos contabilizados em educação especial estavam matriculados em escolas regulares ou classes comuns. Em 2010 esse número já havia passado para 483,3 mil dos 702,6 mil estudantes na mesma condição, um salto de 13% para 69% dos alunos com necessidades especiais matriculados em escolas regulares.

Formando pessoas mais tolerantes
Uma pesquisa qualitativa feita recentemente no Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP) apontou que vivenciar a experiência da educação inclusiva na pr-escola pode promover a tolerância, a abetura em relação ao diferente, evitando-se assim o preconceito.
O estudo, feito com seis alunos com idades entre 7 e 16 anos egressos de uma creche pública com características inclusivas e ambiente diversificado, revelou que as experiências vividas na infância como fundamentais para definir as características mais marcantes do caráter de uma pessoa, com os entrevistados demonstrando uma abertura para se relacionar com pessoas diferentes - não apenas com deficiências físicas e intelectuais, mas também com orientação sexual, religião, etnia, classe social e demais questões que caracterizam o diferente.
Além disso, os estudantes também mostraram não ter a ideia equivocada de que pessoas com deficiências são tristes ou insatisfeitas, mostrando uma relação de respeito nos relatos. Por fim, os entrevistados também mostrar preocupação com o próximo.
“Enquanto a maioria das pessoas se cala diante de uma cena de discriminação ou agressão, eles se preocupam e alguns interferem na tentativa de ajudar. Isso mostra que a formação foi capaz de criar uma consciência suficientemente forte para desencadear também ações e compromissos, afirmou Marie Claire Sekkel, coordenadora da pesquisa, em entrevista Agência Fapesp.

O a b c do surdo 

quinta-feira, 28 de maio de 2015

Lacres de Alumínio

Uma maneira rápida e fácil de envolver seus amigos e ajudar o Pequeno Cotolengo.

Mobilize a coleta de lacres de alumínio e colabore com a 
aquisição de cadeiras de rodas e com a aquisição de itens 
de custeio, garantindo a qualidade de vida para nossos 
moradores.

1. Colete os lacres em festas, almoços e outras oportunidades;
2. Guarde os lacres em garrafas PET 2L;
3. Faça a doação das garrafas ao Pequeno Cotolengo;
4. O Pequeno Cotolengo vende os lacres como alumínio;
5. Os recursos são revertidos para cadeiras de rodas e itens de custeio.


* Em média, a cada 170 garrafas, é possível adquirir uma cadeira de rodas simples. O valor varia conforme cotação do alumínio e peso das garrafas.

quarta-feira, 27 de maio de 2015

TRABALHO COM HORTAS AJUDA NA EDUCACAO DE JOVENS COM DEFICIENCIA


Olha que boa ideia. A Escola de Educação Especial 29 de Março, de Curitiba, monta hortas suspensas como parte de suas atividades com os alunos. A galera que tem deficiência física e múltiplas planta, cuida e colhe as verduras e legumes. Os professores contam que a atividade auxilia no trabalho pedagógico e terapêutico dos alunos. Veja a foto de Jaelson Lucas/SMCS.

Descrição da Imagem #PraCegoVer: fotografia de um jovem. Ele está sentado em uma cadeiras de rodas e sorri, fechando os olhos. Ele segura uma pá de horta, enquanto mexe nos alfaces plantados na horta. Ao fundo, há uma menina, também em cadeira de rodas. Apenas o rosto dela aparece por trás dos alfaces. Sobre a imagem, está escrito "trabalho com hortas ajuda na educação de jovens com deficiência".

terça-feira, 26 de maio de 2015

Não é a meritocracia; é o valor que se cria

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Meritocracia é uma palavra bonita. Não. É uma palavra que remete a uma coisa bonita: que cada um receba de acordo com seu mérito, que em geral é igual a esforço, dedicação; às vezes se inclui a inteligência.
E — é o que garantem alguns liberais — é isso que vigora no mercado. Quem se esforça, chega lá.
É questionável até que ponto esse tal mérito pessoal sequer exista. Hélio Schwartsman, na Folha, apontou aquele fato que ninguém gosta de lembrar: o esforço pessoal, o suor, a capacidade de trabalho, a inteligência; todos dependem de variáveis que estão fora da escolha pessoal — do mérito, portanto — do indivíduo. Essa esfera do que é só meu, do mérito próprio distinto das circunstâncias do ambiente e da história, simplesmente não existe.  Ao menos, não da forma simplória que se vende.
E existindo ou não, será verdade que o mercado premia justamente o mérito? Se for, caro liberal, então você está obrigado a defender que Gugu Liberato e Faustão têm mais mérito do que um professor realmente excelente e que realmente ensine coisas úteis.
Nada contra o Gugu e o Faustão, mas eles não são meu exemplo ideal de disciplina, dedicação e trabalho duro. E, mesmo assim, o mercado os recompensa muito bem. Do outro lado, milhões de trabalhadores labutam dia e noite, e outros milhões de desempregados procuram o que fazer, e continuam pobres. Ainda falta esforço? São preguiçosos, burros talvez?
Nada disso.
O que realmente determina a remuneração no mercado não é o mérito, não é a virtude, não é o esforço ou a dedicação. É apenas a criação de valor; o valor que aquela pessoa consegue adicionar à vida dos demais.
Não importa se é por esforço, inteligência, sorte, talento natural, herança; quanto mais imprescindível ela for aos outros, mais os outros estarão dispostos a servi-la.
O esforço por si só não garante nada. É verdade que, tudo o mais constante, se a pessoa encontra um campo em que ela gera valor, o esperado é que mais esforço gere mais valor. Com o passar das gerações, a ascensão social se acumula: a filha da retirante nordestina que trabalha de empregada tem computador, aula de inglês e provavelmente não será doméstica quando crescer.
É assim que as sociedades enriquecem. Não é de uma hora para outra, e não tem nada a ver com a crença ingênua de que a renda é ou deveria ser proporcional ao mérito.
Nada é garantido. Às vezes o setor em que o sujeito trabalha fica obsoleto, e o valor produzido pela dedicação de uma vida cai abruptamente. Havia gente muito dedicada entre os técnicos de vitrola de meados dos anos 1990; e mesmo assim…
Meritocracia é um conceito que se aplica ao interior de organizações. Promover membros com base no mérito (em geral medido por algum indicador) pode ser melhor do que fazê-lo por tempo de serviço, pela opinião subjetiva de um superior etc. Meritocracia é um modelo de gestão.  Até mesmo o governo, por exemplo, poderia se beneficiar dela, reduzindo suas ineficiências.  Não é um modelo sem falhas: a necessidade de mostrar resultados cria uma pressão interna muito grande e pode minar a cooperação, a manipulação dos indicadores pode viciar o sistema de avaliação.
Encontrar o sistema mais adequado a cada contexto é uma questão de administração, de funcionamento interno de organizações, que nada tem a ver com o mercado.  Mercado é o processo (sim, memorizem isso: o mercado é um processo) no qual algumas organizações existem e operam. Às vezes organizações nada meritocráticas prosperam no mercado, e organizações meritocráticas podem existir fora dele.
Satisfaça as necessidades dos outros, e as suas serão satisfeitas. Não importa se é por mérito, por sorte ou por talento. O cara mais esforçado e bem-intencionado do mundo, se não criar valor, ficará de mãos vazias.
Achou injusto? Então aqui vai um segredo: é você quem perpetua esse sistema. Se sua geladeira quebra, você vai querer um técnico esforçado e que dê tudo de si, ou vai querer um que faça um ótimo serviço, com pouco esforço e a um baixo custo? Quer um restaurante ruim mas com funcionários esforçados ou quer comer bem? O mundo reflete o seu código de valores e, veja só, ele não é meritocrático.
A vida não é e nem deve ser uma corrida que parte de condições iguais e na qual, no fim do jogo, vencem os melhores. Na medida em que esse sonho meritocrático é sequer possível (estamos muito longe de corrigir desigualdades genéticas, por exemplo), ele exigiria um investimento enorme só para produzi-lo; sacrificaríamos valor para criar condições artificiais que se adequem a esse ideal abstrato. Todos ficariam mais pobres para realizar esse sonho moral.
Mas quem disse que a igualdade é moralmente superior à desigualdade? Se um meteorito cai na minha casa e não na sua, isso é injusto? É imoral?
O sistema de mercado não premia a virtude; ele premia, e portanto incentiva, o valor. É feio dizê-lo? Pode ser, mas ele tem um lado bom: é o sistema que permite que a vida de todos melhore ao mesmo tempo. Que todo mundo que quer subir tenha que ajudar os outros a subir também. Ele não iguala o patamar de todo mundo, mas garante que a direção de mudança seja para cima.
O ideal da meritocracia tem o seu apelo, mas ele depende de meias-verdades: a ideia do mérito que é só meu e de mais ninguém, a de que meu suor justifica o que eu ganhei. Sem suor ou inteligência, o ganho é sujo, indevido. Mas o outro lado dessa moeda é feio: implica dizer que quem não chegou lá não teve mérito; que a pobreza é culpa do pobre.
A lógica do mercado é outra: você criou valor, será recompensado. Sua riqueza não diz nada sobre o seu mérito; ela não justifica e nem precisa ser justificada. O resultado desse foco no valor é que mais valor é criado. Você recebe aquilo que entrega e todos ganham.
[Nota do IMB: por que Faustão, Gugu, jogadores de futebol e artistas globais ganham mais de R$ 1 milhão por mês ao passo que um professor realmente bom ganha apenas uns R$ 5 mil?  Um bom professor pode realmente gerar valor, mas ele gera valor para uma quantidade ínfima de pessoas ao ano.  Quantos alunos diferentes ele tem?  Provavelmente, não mais do que 200 (um número bem exagerado).  Portanto, ele cria valor para 200 pessoas por ano.  É uma produtividade extremamente baixa.  Já os indivíduos supracitados têm alcance nacional (alguns, mundial), milhões de pessoas consomem voluntariamente seus serviços, e eles geram retornos — goste você ou não deles — para seus empregadores semanalmente, que estão satisfeitos em lhes pagar salários milionários.  Se não gerassem valor, seria simplesmente impossível terem esses salários.]

Joel Pinheiro da Fonseca é mestre em filosofia e escreve no site spotniks.com." Siga-o no Twitter: @JoelPinheiro85 
http://www.mises.org.br/Article.aspx?id=2054

Se você acha que todos têm as mesmas oportunidades, dá uma lida nessa história em quadrinhos Por WILL

Privilégio e justiça social são dois temas que ganharam inúmeras discussões nas redes sociais ultimamente.
Em tempos de Eleições e crise econômica, todo argumento parecia rodear essas questões.
A verdade é que o entendimento sobre os assuntos são muito mais complexos do que qualquer discussão no Facebook costuma levantar. Mas, para nossa sorte, o ilustrador australiano Toby Morris criou um quadrinho que coloca um pouco de luz sobre isso.
Feito para qualquer um entender, On a Plate (“De bandeja”, em tradução livre) foi traduzido pelo pessoal do catavento*.

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http://awebic.com/cultura/se-voce-acha-que-todos-tem-as-mesmas-oportunidades-da-uma-lida-nessa-historia-em-quadrinhos/

Um cinema deu garrafas de água. Ninguém conseguiu abri-las. Então algo começou rodar na telona…

Em um cinema de Los Angeles, o The Water Project executou uma promoção: todos que estavam por lá ganhariam uma garrafa de água.
Mas, é claro, tinha uma pegadinha.

As garrafas eram praticamente impossíveis de abrir.

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Por quê? Para chamar atenção para uma causa social. Depois que as pessoas se sentiram frustradas de não conseguirem beber água, algumas palavras apareceram na grande tela.

“Se você acha frustrante fazer um pequeno esforço para beber água, imagine o que essas crianças sentem.”

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Invés de trailers de filmes, as imagens mostravam crianças que precisam se esforçar para buscar água todos os dias.
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Ficou claro o desconforto da platéia.

Clique no play e veja como aconteceu.

Nós reclamamos quando a crise hídrica bate em nossas portas e não temos água na torneira. A verdade é que existem pessoas em situação muito pior.
1 em 9 pessoas ao redor do mundo sofre com escassez de água para beber. Cerca de 2.000crianças morrem todos os dias de doenças transmitidas por água contaminada.

Agora a boa notícia

Melhorar o acesso de água potável no mundo não é impossível. Entre 1990 e 2002, 1 bilhão de pessoas ganharam meios de consumir água potável — e o número tem crescido ainda mais.
Vamos ser sinceros: colocar um monte de gente numa sala de cinema tentando abrir garrafas de água vai solucionar a escassez de água potável no mundo? Não. Mas o experimento é feito para chamar atenção a um problema básico que muitas pessoas enfrentam todos os dias.

Empatia pode se tornar ação

Se você acha que todas as pessoas do mundo deveriam ter acesso aos recursos básicos para a vida, então você conseguiu entender a proposta da campanha.
Basicamente você pode ajudar de duas formas: financeiramente através do site do projeto oucompartilhando este experimento social com seus amigos.
http://awebic.com/cultura/um-cinema-deu-garrafas-de-agua-ninguem-conseguiu-abri-las-entao-algo-comecou-rodar-na-telona/