domingo, 17 de junho de 2012

Confortável e segura para todas as idades

Marcelo Andrade/ Gazeta do Povo / A arquiteta Fabiana Nathalie: ampliação de portas e corredores para adaptar os espaços de uma casa de repouso
A arquiteta Fabiana Nathalie: ampliação de portas e corredores para adaptar os espaços de uma casa de repouso
Facilitar o acesso e diminuir obstáculos são prioridades para tornar os espaços confortáveis para pessoas idosas

Fonte: Gazeta do Povo

A população do Brasil está envelhecendo. De acordo com o último Censo do IBGE, divulgado em abril de 2011, a etapopulação com 65 anos ou mais, que era de 4,8% em 1991, chegou a 7,4% em 2010. O crescimento aponta para uma possibilidade: até 2025 o Brasil terá uma população de cerca de 32 milhões de pessoas com mais de 60 anos.
O dado, além de inspirar cuidados relativos à saúde da população, também indica que a aparelhagem urbana e as residências terão de estar prontas para receber a população mais velha e deixa-la confortável inclusive dentro de casa. Por isso, é preciso evitar obstáculos. Mesas e cadeiras muito baixas, móveis que não estão bem firmados, pisos e tapetes escorregadios, espaço suficiente entre os móveis e nas portas e corredores também são inimigos do bem-estar do idoso.
Cuidados
Conheça alguns detalhes que fazem a diferença para a qualidade de vida do idoso dentro de casa.
Exterior
O exterior do imóvel deve ser bem iluminado, facilitando a visão do interior para fora. O acesso deve ser fácil e sem barreiras, com rampas, de preferência, com piso áspero e marcações claras dos caminhos. Deve haver espaço livre na área de circulação perto da porta de entrada. A maçaneta ideal é a do tipo alavanca, mas fácil de abrir. A fechadura deve estar sobre a maçaneta e não abaixo. Os trincos de segurança devem ser deslizantes.
Quarto
A cama deve ter altura entre 45 e 50 centímetros, incluindo o colchão, que deve ter densidade adequada para o usuário. É importante que a pessoa sentada na beirada da cama consiga apoiar os pés no chão. A cama deverá ter cabeceira, que permita à pessoa se recostar. A mesa de cabeceira deve ter 10 centímetros a mais que a cama e bordas arredondadas. Deve ser firme e, de preferência, estar presa à parede, pois muitas vezes é usada como apoio. Os armários devem ter portas leves, de fácil acesso, arejadas. Cabideiro baixo, prateleiras com alturas variáveis, luz interna e puxadores tipo alça. Nas janelas, o sistema de abertura deve ser para dentro. É importante colocar uma poltrona, que facilita para calçar meias e sapatos.
Banheiros
As paredes de alvenaria devem ser fortes o suficiente para instalação de barras de segurança fixadas por buchas, em alturas variáveis. O espaço interno do banheiro ou box deve ser para a circulação de duas pessoas. Há casos em que o cuidador precisa auxiliar o idoso na higiene. A altura do vaso sanitário deve estar entre 48 e 50 centímetros e a base do mesmo deve ser elevada, cerca de 10 centímetros. A descarga deve ser simples, de caixa acoplada ou acionada por botão.
Cozinha
É interessante manter uma organização triangular de pia, fogão e geladeira, para não interferir no fluxo necessário para o preparo dos alimentos. Os armários não devem ser muito altos e objetos com pouco uso devem ser guardados nos armários superiores. O fogão deve ter os botões de controle na parte da frente. Forno elétrico e micro-ondas devem ser instalados em locais de fácil acesso.
Sala
Use cores claras nas paredes e inclua diferença de texturas para estimular o idoso. A iluminação deve ser uniforme, contínua e anti-ofuscante para compensar as dificuldades visuais. O ambiente deve estar livre de móveis e objetos baixos. Sofás e poltronas devem ser confortáveis, com altura média de 50 centímetros, com braços e densidade moderada. A mesa de jantar deve ter bordas arredondadas, sem tapetes embaixo e com cadeiras sem braço.
Fonte: Casa Segura Arquitetura
“A residência que vai ser ocupada pelo idoso e até mesmo aquela onde já moram adultos, que um dia vão envelhecer, poderia ter detalhes que atentam para essa necessidade”, explica a arquiteta Fabiana Nathalie, da NHT Arquitetura. Ela já trabalhou em projetos de adaptação de imóveis para a implantação de casas de repouso e na reforma da casa da própria avó. “Nas casas mais antigas, como aquela em que minha avó morava, havia um degrau para chegar ao banheiro. Foi preciso fazer um contrapiso de 12 centímetros para nivelar o acesso e mudar a abertura da porta para fora, além de colocar barras de apoio para o vaso sanitário e no box”, explica.
Ela enumera ainda mais alguns cuidados essenciais. O piso frio deve ser substituído por um emborrachado, lavável. Carpetes e tapetes também devem ser evitados. Pelas paredes, principalmente dos quartos, não deve passar friagem e os móveis não devem criar obstáculos para a passagem. Entre os móveis é preciso deixar um bom espaço. “Entre camas, por exemplo, o ideal é que haja 80 centímetros livres de cada lado, para permitir o acesso mais fácil de uma emergência média”, exemplifica.
Para a arquiteta, a questão mais complexa é a dos desníveis. Ela cita o exemplo da casa de repouso Vó Mercedes, onde foi preciso adaptar os espaços para o bem-estar dos moradores. “Normalmente as casas maiores são mais antigas e possuem muitos desníveis no piso, o que nos obriga a projetar rampas com corrimãos. Quanto mais plana e ampla a casa nas circulações, melhor será o local. Caso tenha muitos desníveis, mas tenha espaço para se projetar as rampas com as inclinações corretas, não há problema”, avalia.
Normatização
O projeto de um imóvel ideal para um idoso morar deve seguir as diretrizes da Norma Técnica 9050, publicada pela Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) em 2004. Lá, estão explicitados alguns itens básicos para proporcionar um espaço mais confortável. Entre eles, está o tamanho de abertura mínimo das portas: pelo menos 0,90m de vão livre é necessário. As portas dos banheiros devem abrir para fora do ambiente, facilitando o acesso do cuidador ao idoso que por ventura sofra um mal súbito ou caia atrás da porta. Corredores internos ou áreas de circulação externa devem conter corrimão e ter, no mínimo, um metro de largura. Não é permitido desnível no piso, de forma alguma, havendo sempre a necessidade de rampa, devidamente calculada, com as inclinações descritas nas normativas (o ideal é não ultrapassar 8,33% em construções novas e 12,5% em reformas onde não seja possível menor inclinação).
Adaptação é feita sob encomenda do cliente
Para as construtoras, custa ca­­­­ro oferecer um imóvel com­­ todos os quesitos exigidos para o bem-estar de um idoso. Mas, quem precisa das adaptações pode pedi-las como personalização do­­ projeto. “O que já é ponto pacífico é a acessibilidade nas áreas comuns, onde o empreendimento já vem com essa concepção de que é preciso ter rampas ou plataforma elevatória para acesso de todos”, diz o gerente de produto da Thá Incorporadora, Valdecir Scharnoski.
A dimensão de portas e corredores, no entanto, vai depender da adaptação necessária para cada um. “Seria até injusto com o produto e com os moradores de cada unidade privativa, se exigíssemos que ele aceitasse uma medida mínima para porta se ele não tem a necessidade”, considera. De acordo com ele, os produtos são criados pensando em casos gerais e não específicos.
A engenheira civil Vivian Cu­rial Baeta de Faria, coorde­­nadora do Programa de Aces­­sibilidade do Conselho Re­­gio­­nal de Engenharia e Agro­­nomia no Paraná (Crea-PR), diz que a acessibilidade deveria ser pensada como item essencial para todos, não só para idosos ou pessoas com necessidades especiais. “A partir do momento em que você faz adequações para tornar os ambientes mais seguros, todos são envolvidos, embora algumas pessoas sejam preferenciais nesse contexto. Mas ao passar dos anos os moradores vão envelhecer ou até mesmo por uma necessidade temporária, como uma perna quebrada e até uma gravidez, esses itens são importantes”, afirma.
Ela comenta que independente da idade, cada um pode pensar se a casa que habita estaria pronta para receber um idoso. “Podemos pensar se a circulação está livre, se não tem ‘armadilhas’ em armários, se o piso não propicia uma queda. As nossas casas não estão preparadas para os idosos, que têm locomoção, audição e visão dificultadas. Mas estamos envelhecendo, nossa situação pode mudar e vamos precisar de lugares ideais”, defende.

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